AO VIVO
Menu
Busca quarta, 14 de abril de 2021
Busca
Belo Horizonte
27ºmax
15ºmin
Correio
Meio Ambiente

Incêndios em Mato Grosso: tragédia anunciada

Ministro e ONGs que atuam no Pantanal apontam para falta de preparação adequada num período de uma seca severa, com maior risco de incêndios

07 outubro 2020 - 16h05Por Paulo Toledo

A tragédia da queimada que vem atingindo o Mato Grosso era uma tragédia anunciada. Apesar período de proibição das queimadas ser adiantado e estendido neste ano em Mato Grosso, a medida mostrou-se insuficiente para conter o avanço do fogo no estado, um dos que mais sofreu com os incêndios em todo o território brasileiro.

Seus três biomas – Amazônia, Cerrado e Pantanal – registraram em conjunto um aumento de 45% em número de focos de calor de janeiro a setembro, em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 39,9 mil focos de calor, enquanto 2019 contabilizou 27,5 mil pontos, de acordo com dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e foram compilados pelo Instituto Centro de Vida (ICV), que mantém um Monitor de Queimadas.

De acordo com o ICV, do total de focos neste ano, 83% (33,1 mil focos) ocorreu no período proibitivo – de julho a setembro, época da seca quando os riscos de incêndios florestais são acentuados pela vulnerabilidade da vegetação. Vale destacar que as principais regiões atingidas no Mato Grasso são o Pantanal e o município de Chapada dos Guimarães.

Além das condições naturais de forte calor e seca, especialista dizem que o alastramento dos incêndios pode ter, também, origem no uso do fogo para fins agropecuários, quando é utilizado para limpeza ou renovação da pastagem do gado. O uso do fogo na área rural é permitido de forma controlada e com autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema/MT), mas completamente proibido na época da estiagem. Em 2020, o período proibitivo começou no dia 1º de julho e seguiu até o dia 30 de setembro.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, destacou em uma live junto com o presidente Jair Bolsonaro que a falta de manejo preventivo do fogo potencializou as queimadas no Pantanal em 2020. O bioma é a maior planície alagada do planeta, com mais de 150 mil quilômetros quadrados.

Em relação às queimadas, há uma corrente que insiste em responsabilizar o Governo Federal, em especial em relação ao Pantanal, no que há um equívoco. Em entrevista ao Diário Popular IPTV, o Ministro Ricardo Salles destacou que o Governo Federal tem jurisdição apenas sobre 5% do bioma Pantanal, que corresponde a unidades de conservação federais. “Os demais 95% do território do Pantanal são de responsabilidade estadual”, ressaltou.

Estimativas de representantes de organizações não governamentais (ONG) e entidades que atuam no Pantanal para minimizar os efeitos da seca e do fogo, que já destruiu 3,461 milhões de hectares do bioma (sendo aproximadamente 1,7 milhão hectares em Mato Grosso), disseram em audiência virtual realizada, no início do mês, pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados, que os sinais de que a região enfrentaria uma seca severa, com maior risco de incêndios, foram notados ainda no primeiro trimestre do ano. Eles afirmaram que, apesar de pedir providências às autoridades responsáveis, pouco foi feito.

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram que registros de chuva no bioma tiveram uma redução de 50% em relação à média histórica

No Pantanal, bioma proporcionalmente mais afetado no Mato Grasso, 95% dos focos de calor ocorreram no período de proibição. Dos 11,2 mil pontos de calor nos sete meses, 10,7 mil aconteceram entre julho e setembro.

Aumento

De acordo com levantamento do ICV, os mais de 11 mil focos de calor no Pantanal em Mato Grosso representam 62% de todo o contabilizado no Pantanal brasileiro, que no período de sete meses registrou 18,2 mil pontos, o maior número da série histórica de dados do Inpe desde 1998.

Também simbolizaram um aumento de 905% em relação ao mesmo período do ano passado, quando a porção mato-grossense do bioma contabilizou 1,1 mil focos. Uma das causas foi a seca severa sofrida pela região.

Um dos principais indicadores da forte estiagem, com redução de 50% nas chuvas, segundo o INMET, é o rio Paraguai, que atingiu o nível mais baixo desde os anos 1960. “A situação tem relação direta com o desmatamento na Amazônia. O corte ilegal da vegetação afeta o fenômeno conhecido como ‘rios voadores’, quando a umidade da floresta amazônica dá origem a uma coluna de água transportada para regiões que incluem o sudeste e centro-oeste do país”, afirma o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Vinícius Silgueiro.

Não obstante também os aumentos nos índices de queimadas na Amazônia, os últimos dados oficiais de desmatamento apontam Mato Grosso como o segundo estado que mais desmata a floresta amazônica no Brasil e que, entre 2019 e 2020, registrou alta consecutiva nos índices de corte raso da floresta.

O engenheiro florestal afirma que o descontrole do fogo no bioma também é reflexo da falta de articulação em nível federal e estadual. “As áreas são muito extensas, o acesso na maioria das vezes é bem limitado, o vento é muito forte e esse ano já se tinham previsões consistentes de que a seca seria mais intensa. Justamente por isso era possível ter um melhor planejamento e direcionamento de recursos para que a situação não chegasse a esse ponto”, diz.

A Secretaria Adjunta de Comunicação do Governo do Mato Grosso foi procurada para comentar o assunto, mas até o encerramento deste texto não houve manifestação.

.

https://www.icv.org.br/website/wp-content/uploads/2020/10/joseonca.png

Foto: site do ICV

 

*Com informações do ICV e Agência Brasil