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Cultura

Em meio a pandemia, artistas se reinventam para garantir trabalhos

Internet tem sido fundamental durante período de isolamento social

02 outubro 2020 - 12h30Por Jennifer Vargas

É difícil mensurar quais setores foram mais afetados com a pandemia da Covid-19, mas para a área cultural é inegável o impacto na paralisação das atividades. Formada basicamente pela aglomeração do público na plateia, seja em shows ou peças de teatro, a categoria foi obrigada a se reinventar e criar alternativas para não sucumbir às dificuldades financeiras.

Atriz desde a adolescência, Maira Cardoso, diz não se lembrar de outro momento em que ficou tanto tempo longe dos palcos. No início do ano com três projetos, um deles inclusive com a temporada em andamento, ela teve que reavaliar todo o trabalho com a chegada da pandemia. “É um período bem incerto, bem complicado para nós, artistas, e a gente se vê realmente sem auxílio nenhum”, lamentou.

Maira Cardoso, da Cia de Teatro de Jundiaí, em "Quarentena de Histórias"

Como alternativa, ela e os colegas criaram um programa gravado em casa e por celular, que tem rodado todo o país após se tornar material didático para crianças sem acesso à internet.

“É o que tem funcionado, é a alternativa que a gente achou também de não ficar parado, de se mobilizar. E tem dado certo, mas nem todo mundo está conseguindo achar alternativas, ainda mais [que sejam] rentáveis nesta nova fase.”

É o caso de Netto Ramos, cantor de sertanejo em bares e festas, o artista tinha uma média de 15 shows por mês antes da pandemia e viu este número cair a zero em meados de março. Com contas reduzidas até nas compras do supermercado, para sobreviver ele recebeu ajuda da família e passou a realizar lives em seu Instagram com couvert solidário dos fãs.

“Realmente afetou muito aqui em casa. O lado financeiro, o lado psicológico de a gente ter que ficar dentro de casa, sem trabalhar. Afetou, e afetou bastante. Aí quando as contas começaram a chegar realmente bateu aquele desespero, porque sem trabalhar, sem ter como pagar... E as contas não param, né? Tivemos muita ajuda da família e dos amigos”, ressaltou.

João Signorelli João Signorelli em "Os últimos três dias – o desassossego de Fernando Pessoa" | Foto: YouTube

Já o ator João Signorelli, veterano nos grandes espetáculos, estava prestes a estrear seu novo monólogo, “Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa”, em abril, no Teatro João Caetano; com a pandemia, a peça com texto de Miguel Filliage teve que ser readaptada para a versão online e disponibilizada de forma gratuita. 

“O maior desafio para nós atores é encontrar espaço para se comunicar. Eu acho que a última coisa a ser aberta será o teatro, porque a gente vive de juntar gente, então, nosso maior desafio hoje é de se estabelecer e expressar da maneira online, que foi a única que restou.”

Retomada

E a aflição dos artistas faz sentido já que a retomada das atividades do setor cultural segue indeterminada. Mesmo com o número de casos e óbitos por Covid-19 em queda há algumas semanas no estado de São Paulo, o retorno está previsto apenas para a fase verde do plano de flexibilização, o que se estima acontecer no começo de outubro.

As dificuldades acontecem até mesmo para atividades autorizadas para retorno gradual, mas ainda com distanciamento. Artista há mais de 30 anos e professora em uma escola de teatro, Monica Peres resumiu como tem sido encarar essa nova realidade.

“[O calor humano] faz muita falta. Eu dou aula de Expressão Corporal e agora as pessoas não podem se tocar, os alunos não podem chegar perto um do outro. É muito frustrante, não é 100%, é uma adaptação bastante difícil para nós.”

E a aflição faz sentido já que a retomada das atividades culturais deve ser a última acontecer e em ritmo mais lento do que outros setores. Mas uma coisa não dá para negar, o que seria da quarentena sem os mais diversos artistas espalhados pelo país se dedicando a levar um pouco de alegria a quem teve que se acostumar com uma solidão inesperada?

“Para mim é vida!”, diz Monica ao ser questionada sobre a importância da arte. E conclui: “Eu não me sinto tão viva quando como eu estou no fazer teatral, em qualquer uma das funções, em qualquer uma das etapas. Eu me sinto viva no sentido mais pleno da palavra”.